Aprender A Ciência Mostra

Aprendizagem da leitura e da escrita

Dominar a ortografia

Permitir que uma criança aprenda a norma ortográfica da língua é um objetivo básico do ensino da leitura e da escrita e tem repercussões importantes para o desenvolvimento da literacia. Aqui, abordamos as fontes a considerar no ensino da ortografia e como elas podem ser contempladas em atividades de ensino e aprendizagem.

1. Dominar a ortografia

Dominar a ortografia significa ter aprendido o conhecimento ortográfico, isto é, o conhecimento de como as palavras de uma língua se escrevem corretamente. A correção resulta das convenções e do consenso que uma comunidade estabeleceu sobre como a sua língua deve ser escrita. Como facilmente se nota, essas convenções são passíveis de revisão e mudança. Mas importa salientar que a linguagem escrita é consideravelmente mais conservadora do que a linguagem falada. Por outras palavras, a língua falada muda mais rapidamente do que a língua escrita. O conhecimento ortográfico tem na sua base quatro fontes cruciais para que a criança possa dominar a ortografia das palavras: a fonologia, os padrões ortográficos, a morfologia e a etimologia. Um bom ensino do conhecimento ortográfico deve considerar explícita e estrategicamente essas quatro fontes.  


2. A importância do domínio da ortografia para a leitura e a escrita

Escrever com correção ortográfica é importante, desde logo, por razões sociais. Na ausência de outras pistas e perante erros ortográficos, os leitores tendem a inferir (erradamente) baixas competências intelectuais e qualidades negativas naqueles que cometem erros ortográficos. O uso da linguagem, neste caso escrita, como xibolete é potencialmente pernicioso e facilmente a pode tornar num elemento de exclusão. 

Aprender a escrever de acordo com a norma ortográfica é também muito útil para a leitura, porque reforça as representações ortográficas que são necessárias à leitura. A vantagem da ortografia e do seu domínio está em exigir uma representação completa e detalhada da palavra escrita. Exemplo: enquanto um bom leitor reconhece q_alid_d_  sem esforço, um escritor não consegue escrever corretamente qualidade sem saber exatamente quais as letras em cada uma das posições. Essa representação ortograficamente mais rica permite que os bons leitores possam depois beneficiar da redundância na linguagem e literalmente conseguir “ler por meias palavras”.  


3. A ciência mostra

Um corpo extenso de investigações mostrou que a fonologia, especificamente a consciência fonológica, e o conhecimento das correspondências fonema-grafema são alicerces fundamentais para a aprendizagem da ortografia. Quando a criança domina o princípio alfabético, está preparada para aprender o código ortográfico. Com o treino da escrita das palavras, ela torna-se progressivamente mais autónoma na escrita. Pode até arriscar escrever palavras que nunca viu antes. Para a maioria das palavras do português (ditas regulares), esse conhecimento é suficiente para que a criança escreva corretamente a palavra. No entanto, para muitas outras, é necessário que a criança considere também outras fontes que influenciam a ortografia das palavras. 

Pelo simples contacto com as palavras escritas, as crianças aprendem que algumas combinações de letras são mais frequentes do que outras e até que algumas combinações são impossíveis. Não são precisos muitos meses de contacto com palavras escritas em português para que as crianças percebam que não é possível começar uma palavra dobrando consoantes: gg ou tt. Possivelmente são até capazes de notar que em português as únicas consoantes que são duplicadas são o <s> e o <r>, mas nunca no início de uma palavra. Muitos outros padrões ortográficos são também detetados pela simples exposição repetida às formas escritas das palavras. Tipicamente, a aprendizagem dos padrões nas letras decorre de forma implícita, mas há vantagens em que os professores os possam usar estrategicamente (por exemplo, selecionando textos em que esses padrões são salientes) e inclusive que os explicitem quando eles podem ser aprendidos como regras

A morfologia é outra fonte de conhecimento ortográfico, particularmente rica no português. Basta pensar na flexão de género, de número, de grau dos adjetivos e na flexão verbal, nos processos de derivação por prefixação e sufixação para compreender como o conhecimento sobre a formação das palavras pode facilitar a aprendizagem da ortografia portuguesa. 

Num mundo cada vez mais conectado, as trocas linguísticas vão continuar a intensificar-se. Poder conhecer a origem de uma determinada palavra, além de deixar clara a fonte da influência, ajuda também a consolidar o conhecimento ortográfico. Em português são muito relevantes as influências latinas e gregas. 

A investigação tem demonstrado amplamente que ensinar a ortografia das palavras melhora a leitura. Aliás, as correlações entre competência ortográfica e competência de leitura são habitualmente muito fortes. Crianças que escrevem com grande correção ortográfica, são frequentemente também muito boas leitoras. Infelizmente, o inverso também acontece. Crianças com dificuldades na leitura também têm dificuldades na ortografia. A relação entre leitura e ortografia é mutuamente reforçante. No entanto, no início da aprendizagem da leitura ela parece ser mais forte no sentido da ortografia para a leitura. Escrever de forma ortograficamente correta exige uma representação exata de todas as posições na palavra. Escrever essa palavra reforça mais a sua representação ortográfica do que lê-la. Isto acontece porque a leitura é frequentemente possível mesmo sem uma representação perfeita da palavra. É por isso importante que, além de lidas, as palavras possam ser escritas. A escrita beneficia a leitura.

Autoria: Rui Alves          Edição: Andreia Lobo

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Recomendações

Perguntas Frequentes

Deve-se corrigir os erros ortográficos?

Sim, é importante que as crianças possam conhecer a norma ortográfica em vigor. Talvez mais importante do que corrigir é assinalar o erro. E trabalhar com a criança no sentido de perceber a dificuldade, ultrapassar o erro e compreender as razões por que uma palavra se escreve de uma determinada forma e não de outra.

Dar muitos erros ortográficos é sinal de dislexia?

Há muitas razões para cometer erros ortográficos, a dislexia pode ser uma delas, especialmente na ortografia portuguesa, que é mais inconsistente no sentido da escrita do que no da leitura. Se os erros são numerosos e persistem, essa é seguramente uma boa razão para encaminhar a criança para uma avaliação especializada.

LEITURAS SUGERIDAS

Alves, R. A., Limpo, T., Salas, N., Joshi, R. M. (2019). Handwriting and spelling. In S. Graham, C. A. MacArthur, & M. Hebert (Eds.), Best practices in writing instruction (pp. 211-239). New York: Guilford Press.

Graham, S., & Santangelo, T. (2014). Does spelling instruction make students better spellers, readers, and writers? A meta-analytic review. Reading & Writing, 27, 1703-1743.

Joshi, R. M., Treiman, R., Carreker, S., & Moats, L. C. (2008). How words cast their spell: Spelling is an integral part of learning the language, not a matter of memorization. American Educator, 32, 5-16.

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