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Tomada de consciência dos fonemas

A tomada de consciência dos fonemas envolve a compreensão de que os fonemas são partes na constituição das sílabas e, portanto, na constituição das palavras. A consciência dos fonemas desenvolve-se como consequência de um ensino explícito, habitualmente o ensino das letras aplicado a tarefas de leitura e/ou escrita, e é essencial para aprender a ler num sistema de escrita alfabética, como o nosso.

1. Tomada de consciência dos fonemas

A tomada de consciência dos fonemas manifesta-se na habilidade para detetar, identificar, pensar sobre e operar com os sons mínimos da fala. Envolve a compreensão de que os fonemas são partes na constituição das sílabas e, portanto, na constituição das palavras. 

Por vezes, confunde-se consciência dos fonemas com métodos fónicos de ensino da leitura. Ao contrário da consciência dos fonemas, que envolve, teoricamente, apenas representações analíticas dos sons da fala, os métodos fónicos implicam a ideia de uma relação sistemática entre letras e unidades fonológicas, entre as quais os fonemas. Consciência fonémica e consciência fonológica não são sinónimos.

A tomada de consciência dos fonemas é, dos tipos de consciência fonológica, aquele que exige o grau mais elevado de abstração. A consciência das unidades silábicas, assim como a consciência de unidades infrassilábicas mas suprafonémicas (como br – em branco e ar – em mar, chamadas, respetivamente, ataque e coda) são também formas de consciência fonológica.

Quando produzimos fala, os fonemas ocorrem em coarticulação uns com os outros. Por exemplo, se dissermos a palavra “crista” marcando as sílabas, a primeira sílaba - /kriʃ/- corresponderá a um ato articulatório único que contém informação sobre quatro fonemas. Isto é, os quatro fonemas são produzidos quase simultaneamente e as características articulatórias/acústicas de uns influenciam a produção dos outros. Por isso, separá-los e identificá-los são exercícios de abstração muito difíceis. 

Voltando ao exemplo, com exceção da vogal, os outros fonemas não têm realidade física – acústica – quando produzidos isoladamente. Conseguimos percebê-los quando são produzidos num envelope que é uma sílaba e quando começamos a construir representações abstratas sobre esses segmentos da fala, as quais vamos elaborando na nossa mente como objetos sonoros à medida que somos confrontados com o exercício de pensar sobre os sons da fala, provavelmente quando começamos a lidar com letras. As representações abstratas são os fonemas e correspondem a ideias que construímos a partir de uma informação acústica que vamos identificando como uma unidade de som e que aprendemos a rotular, e.g., como um /p/ ou um /z/ ou um /a/.

Tomar consciência dos fonemas permite lidar com as nossas representações abstratas dos sons da fala. Permite-nos, por exemplo, reconhecer que “casa” e “queijo” começam com o mesmo fonema, /k/; que “champô” tem quatro fonemas - /ʃɐ̃po/; que na palavra “trenó” o /r/ vem antes de /ɨ/ e não depois; que, ao trocarmos o /g/ de “gato” por /k/, formamos uma outra palavra, “cato”, ou, se trocarmos o /t/ de “gato” por /l/, obtemos “galo”.


2. A importância das competências envolvidas no conceito a definir para a leitura e a escrita 

Desenvolver a consciência dos fonemas é essencial para aprender a ler num sistema de escrita alfabética como o nosso. 

A razão é simples: os sistemas de escrita alfabética representam os fonemas, unidades fonológicas, da fala através de grafemas (uma letra [<p> para o fonema /p/], ou duas letras [<ch> para o fonema /ʃ/, como em ‘chuva’]). Se dissermos uma palavra contendo dois fonemas, como, por exemplo, “fim” (/f/- /ĩ/), ao representá-la na escrita teremos que usar dois grafemas (<f> - m>). Se uma palavra tem quatro grafemas (e.g., <m>, <a>, <ss>, <a> - ), ao lê-la, devemos produzir quatro fonemas (/m/, /a/, /s/, /ɐ/) e juntá-los para pronunciar a palavra (/masɐ/). Por isso, as representações abstratas dos sons mínimos da fala – aquilo que chamamos de fonema – são a chave para usar o código da escrita.

As crianças que não conseguem desenvolver representações abstratas sobre os sons que constituem as palavras – tomada de consciência dos fonemas –, no decorrer da aprendizagem, terão uma grande dificuldade em entender as relações entre grafemas e fonemas nas palavras escritas. Se as representações sobre os fonemas forem inexistentes ou imprecisas, a forma escrita das palavras parecerá arbitrária, não dependente da sistematicidade das relações grafema-fonema. A leitura assentará mais na memorização de palavras do que no uso do princípio alfabético, o que a tornará uma tarefa praticamente impossível.

Existe uma forte relação de reciprocidade entre a aprendizagem de letras e a tomada de consciência dos fonemas. Por isso, devem ser ensinados em simultâneo. A aprendizagem das relações entre letras e fonemas, e também a habilidade para manter em memória a sequência precisa destes, a partir dos grafemas identificados na sucessão de letras, até produzir oralmente ou para si mesma a palavra que está escrita, dependem muito da capacidade da criança para desenvolver representações abstratas sobre o que lhe parece serem os sons mínimos da fala. Seja com a ajuda do professor, seja com a dos pais.


3. A ciência mostra

Vários anos de investigação têm concorrido para a constituição de um corpo sólido de provas da importância que a tomada de consciência dos fonemas tem para aprender a ler num sistema alfabético. Algumas das principais conclusões são:  

     1. A consciência dos fonemas pode ser ensinada e aprendida. Ter consciência dos fonemas é uma capacidade que não desenvolvemos espontaneamente, como a linguagem, mas antes emerge como consequência de um ensino explícito, habitualmente o ensino das letras aplicado a tarefas de leitura e/ou escrita. Embora as crianças possam, se forem explicitamente ensinadas, aprender a focar a atenção em certos sons de fala – principalmente as vogais e as consoantes fricativas – sem terem aprendido letras, esse tipo de conhecimento só será usado produtivamente na deteção de outros fonemas e no uso dessa habilidade quando é associado ao conhecimento de letras.
     2. Suscitar nas crianças a tomada de consciência dos fonemas ajuda-as a aprender a ler e a escrever palavras, particularmente as que entram na escola com desvantagem de conhecimentos alfabéticos e/ou sinais de risco de insucesso;
     3. Suscitar a consciência dos fonemas em conjunto com o ensino da relação entre letras e fonemas conduz a melhores resultados na aprendizagem da leitura do que o ensino que inclui apenas um desses dois componentes;
     4. Suscitar a consciência dos fonemas em conjunto com a relação entre letras e sons pode diminuir o número de crianças em risco de insucesso na leitura;
     5. O nível de aquisição da consciência dos fonemas, avaliado através do desempenho em tarefas que implicam habilidades em operar com fonemas, constitui um bom indicador da manutenção e transferência para os desempenhos em leitura. Isto é, uma vez adquirida a habilidade para lidar com as representações abstratas dos sons da fala, dificilmente se perde esse conhecimento, sendo que as crianças que têm mais sucesso nessa aprendizagem são também aquelas que aprendem melhor a ler;
     6. Há fonemas mais fáceis de apreender do que outros. Em particular, aqueles que conseguimos produzir mais facilmente na fala, ou porque existem isoladamente, como as vogais, ou porque podemos “dizê-los” de forma prolongada – consoantes fricativas (ffff..., ssss....) e líquidas (rrrr....) – devem ser treinados antes das consoantes oclusivas.

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Perguntas Frequentes

Quando uma criança não pronuncia bem as palavras vai ter dificuldade em adquirir consciência dos fonemas?

Dado que a tomada de consciência dos fonemas exige a elaboração de abstrações a partir de formas acústicas variadas – o problema da coarticulação dos sons –, saber pronunciar/articular bem as palavras torna-se um facilitador da tomada de consciência dos fonemas. Por isso, quando, ao falarem, as crianças têm dificuldades em produzir certos sons, isso traduz-se muitas vezes em dificuldades no desenvolvimento de representações abstratas dos sons da fala. No entanto, nem sempre é assim. Tal só acontece quando as dificuldades na fala são persistentes e inesperadas para a idade. 

À entrada no 1.º ciclo, espera-se que os sons da fala sejam geralmente bem produzidos, com exceção, para algumas crianças, dos que correspondem aos fonemas /r/ e talvez /ʎ/. Se a articulação incorreta recair nestes sons e/ou for uma manifestação de tipo “sopinha de massa”, normalmente resolve-se no decorrer das aprendizagens e não prejudica significativamente a tomada de consciência dos fonemas.

Até quando se deve continuar as atividades de ensino explícito e sistemático da tomada de consciência dos fonemas?

As atividades que visam a tomada de consciência dos fonemas devem ser acompanhadas do ensino das letras e do ensino do Princípio Alfabético. Portanto, no início da aprendizagem é essencial, mas também durante todo o 1.º ano de escolaridade – e até ao seu final – é útil tornar explícitos os fonemas que se associam a cada grafema, pois é muito provável que várias crianças precisem ainda dessa explicitação. Verificar a qualidade das representações fonémicas regularmente permitirá ir aferindo a necessidade de insistir ou avançar no plano de trabalho. No início do 2.º ano, é muito importante que o/a professora/a se certifique de que essas aquisições estão seguras. Para as crianças que manifestem dificuldades no desenvolvimento das representações abstratas dos sons, esse ensino deve existir sempre.

Qual é o método para suscitar a tomada de consciência dos fonemas que produz mais benefícios na aprendizagem da leitura?

A investigação tem mostrado que a segmentação de sons de uma palavra (/sɔl/ → /s/- /ɔ/ - /l/) e a fusão de sons pronunciando não o nome das letras mas como os ouvimos na palavra (/s/- /ɔ/ - /l/ →(/sɔl/) são provavelmente os métodos que produzem benefícios mais acentuados na aprendizagem da leitura. Não deve ser esquecido, no entanto, que o seu efeito facilitador depende em grande medida do ensino conjunto das letras.

LEITURAS SUGERIDAS

Carson, K., Gillon, G., Boustead, T, Nippold, M., & Troia, G. (2013). Classroom phonological awareness instruction and literacy outcomes in the first year of school. Language, Speech & Hearing Services in Schools, 44(2), 147-160. http://lshss.pubs.asha.org/article.aspx?articleid=1797329

Ehri, L. C., Nunes, S. R., Willows, D. A., Schuster, B. V., Yaghoub-Zadeh, Z., & Shanahan, T. (2001). Phonemic awareness instruction helps children learn to read: Evidence from the National Reading Panel’s metaanalysis. Reading Research Quarterly, 36, 250 –287.

Morais, J. (2003). Levels of phonological representation in skilled reading and in learning to read. Reading and Writing, 16(1), 123-151.

Morais, J. (2009). Representações fonológicas na aprendizagem da leitura e na leitura competente. Em: Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística, XXIV. Lisboa: APL, 7-21.

Santos & Maluf (2010). Consciência fonológica e linguagem escrita: efeitos de um programa de intervenção. Educar em Revista, 57-71.

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