Aprender A Ciência Mostra

Aprendizagem da leitura e da escrita

Apreensão do princípio alfabético

O princípio alfabético é o mecanismo de funcionamento dos sistemas de escrita alfabética. De acordo com este princípio, cada fonema é representado por um grafema. Compreender o funcionamento do princípio alfabético é a chave da aprendizagem da leitura e da escrita. O princípio alfabético é a base da decodificação/codificação, assim como a da aprendizagem do código ortográfico.

1. Princípio alfabético

Princípio alfabético é a ideia de que, nos sistemas de escrita alfabética, existe uma relação previsível entre os fonemas e os grafemas. A aprendizagem desse princípio permite, na escrita, codificar fonemas em grafemas (concretamente, em letras) e, na leitura, decodificar, isto é, transformar a sequência de letras numa sequência de fonemas que, fisicamente, se manifesta (dizendo-os ou pensando-os) como uma sequência de sons da fala.

A particularidade do princípio alfabético é que as consoantes e as vogais são representadas separadamente. Isto exige a capacidade mental de isolar as consoantes das vogais. Uma operação que não conseguimos realizar fisicamente quando falamos já que, ao pronunciarmos uma consoante, produzimos simultaneamente a vogal que se lhe segue. Quem não sabe ler e escrever no sistema alfabético, não faz essa distinção. Só faz essa distinção quem aprende a ler e escrever utilizando um alfabeto. 

Na ortografia portuguesa, cerca de 60% das correspondências entre grafemas consonânticos e fonemas (leitura) são relações fixas. Nestes casos, a pronúncia do grafema não depende do contexto em que ocorre (letra anterior ou letra seguinte) e também é sempre a mesma, qualquer que seja a posição que ocupe na palavra. Por exemplo, o grafema <lh> tem sempre associado o fonema /λ /, o <rr> corresponde sempre ao fonema /R/, o <hu> corresponde ao /u/, o <p> lê-se sempre /p/, o <t> corresponde a /t/. A codificação de fonemas em grafemas, que estabelecemos quando escrevemos, é mais inconsistente. A relação é de 1:1.9 (fonema:grafema). O que significa que há um grau de incerteza considerável quando temos que decidir como codificar um certo fonema. Se pensarmos nos fonemas consonânticos do português, verificaremos que apenas 11 correspondem a um grafema fixo. 

O princípio alfabético é, no entanto, reelaborado pelo aprendiz quando a decodificação de um grafema (leitura) depende do contexto em que este ocorre. Por exemplo, <s> corresponde ao fonema /z/ entre vogais (“casa”), ao fonema /s/ no início das palavras (“sino”) e, na maioria dos casos, ao fonema /ʃ/ no final das sílabas (“festas”). Embora estas correspondências sejam inteiramente consistentes em cada um dos contextos, aprender que existem diferentes conversões fonológicas para o mesmo grafema envolve uma complexidade maior do que a do uso do princípio alfabético estrito. Requer conhecimento alfabético (relação entre letras e fonemas) em conjunção com a aprendizagem de regras contextuais.

Cerca de 15% dos grafemas consonânticos do sistema ortográfico português tem correspondências fonológicas que são consistentes em função de constrangimentos contextuais. As vogais são grafemas inconsistentes ou irregulares, o que gera frequentemente leituras imprecisas ou lentas, porque nem sempre é imediatamente claro como podemos decodificá-las. Pensemos, por exemplo, na palavra “tenhamos”, e perceberemos facilmente que a leitura do <e> e do <a> constituirá um desafio para quem está a aprender. No entanto, os acentos gráficos permitem resolver a maioria das ambiguidades.

Na escrita, apenas as vogais nasais, o /g/, o /k/ e o /R/ dependem de regras contextuais. Muitos fonemas têm correspondências irregulares na escrita, isto é, não existem regras que determinem a escolha do grafema. Por exemplo, o fonema /u/ em sílaba átona pré-tónica pode escrever-se com <u> (“buraco”) ou com <o> (“bonito”); o fonema /z/ escreve-se com <z> em “buzina” e com <s> em “visita”.

Numa representação alfabética ideal, haveria uma correspondência biunívoca entre cada letra e a sua pronúncia. Mas, na maioria das línguas, há muitas exceções. Por isso, não é suficiente compreender o princípio alfabético. Temos de adquirir o código ortográfico da língua. O código ortográfico é o conjunto de regras e regularidades que representa várias dimensões linguísticas: não apenas a fonologia, mas também essencialmente a morfologia e o conhecimento de palavras particulares, que usamos quando lemos e escrevemos palavras. É esse conhecimento mais elaborado que permite, por exemplo, distinguir na leitura e na escrita <cozer> de <coser>, embora tenham a mesma fonologia, isto é, sejam palavras homófonas.

Veja-se outra ilustração muito simples da necessidade do código ortográfico: “papá” e “papa”. São palavras e conceitos que não podemos confundir. Na escrita, a diferença é mínima: o “a” final, na primeira palavra, recebe acento e, na última, não. A letra (e grafema) <p> corresponde de maneira biunívoca ao fonema /p/ e, por isso, lê-se da mesma maneira sempre que aparece. Porém, a letra <a> não se lê da mesma maneira na primeira sílaba de “papa” e de “papá”.  

Porque é que isso acontece? A grande maioria dos substantivos em português são paroxítonos (acentuados na penúltima sílaba) e, em virtude disso, o primeiro “pa” de “papa” não precisa de acento para ser lido como o último de “papá”, enquanto este precisa, para não ser lido como o último “a” de “papa” e para a palavra ser oxítona (acentuada na última sílaba). 

Em resumo, a mesma letra <a>, nas primeiras sílabas de “papa” e de “papá”, corresponde a dois fonemas vocálicos diferentes e, em contrapartida, dois grafemas vocálicos diferentes (<a> e <á>) podem corresponder ao mesmo fonema. São complexidades do semicomplexo código ortográfico da língua portuguesa que não devem ser ensinadas aos alunos logo de início, mas que os seus alfabetizadores devem dominar completamente para poderem organizar o processo de alfabetização.


2. A importância da apreensão do princípio alfabético 

Aprender a usar o princípio alfabético implica aprender:

    a) nomes e sons de letras ou grupos de letras (grafemas);
    b) a detetar, identificar e isolar os fonemas que constituem as palavras – tomar consciência dos fonemas;
    c) a estabelecer associações entre grafemas e fonemas numa sequência ortográfica.

Estes três tipos de conhecimento são adquiridos e desenvolvem-se em estreita interação, influenciando-se reciprocamente. Conhecer letras ajuda a identificar os fonemas das palavras; por sua vez, tomar consciência dos fonemas ajuda a reter o som das letras e a compreender o seu papel na representação escrita de palavras, canalizando a atenção da criança para os detalhes e para a combinação de letras numa palavra. Por isso, cada um desses conhecimentos tem uma função que é necessária para a aprendizagem da decodificação e da codificação, mecanismos indispensáveis para aprender a ler num sistema alfabético

Além destes conhecimentos, o uso do princípio alfabético depende também da capacidade de memória de trabalho. A razão: a transformação de uma sequência de letras num padrão fonológico (que é uma palavra, na maior parte dos casos) e, vice-versa, a codificação de uma sequência fonológica em escrita exigem a manutenção da cadeia de fonemas que a criança vai convertendo e juntando numa memória ativa até pronunciar ou até escrever a palavra.


3. O que a ciência nos mostra

Um vasto número de estudos provou que as crianças não conseguem apreender o funcionamento do princípio alfabético se forem apenas expostas a material escrito, sem que as relações entre grafemas e fonemas sejam ensinadas explicitamente. Podem reconhecer globalmente algumas palavras escritas, mas a memória é limitada e essa aprendizagem não lhes permite compreender a relação entre os grafemas e os fonemas. Por exemplo, é possível que uma criança tenha aprendido a dizer a palavra “sapo” face ao padrão ortográfico <sapo>, diga “Olga” para o padrão <Olga> e diga “lua” para <lua>. No entanto, só por si, isso não a vai capacitar para ler a palavra <sol>, embora os grafemas desta palavra se encontrem nas outras. 

Também está bem estabelecido que a aprendizagem do princípio alfabético, e a sua aplicação na decodificação/codificação de palavras, é mais eficaz quando há ensino explícito dos seus dois componentes fundacionais: o conhecimento de letras e a tomada de consciência dos fonemas. Ensinar apenas as letras, soletrá-las ou pronunciá-las sílaba a sílaba, sem explicitar o seu papel na representação de cada fonema identificado na palavra, torna difícil compreender o funcionamento do princípio alfabético, torna mais difícil aprender a ler e a escrever.

A ciência mostra ainda que a aprendizagem do princípio alfabético tem um efeito robusto de generalização. Quando uma criança aprende como pronunciar um grafema numa palavra (e.g., <l> em - /luɐ/), é capaz de ler esse grafema em palavras novas, mesmo que esteja noutra posição da palavra.  

Não menos relevantes são as evidências de que esse efeito de generalização se torna um facilitador da leitura e de escrita de palavras novas e uma plataforma para o desenvolvimento da leitura e da escrita. Quando as crianças conhecem letras, conseguem identificar fonemas nas palavras e compreendem o funcionamento do princípio alfabético, vão adquirindo autonomia para ler/escrever palavras novas através de um mecanismo de autoensino. Se sabe decodificar <lupa> e <cor>, consegue decodificar <pular> sem assistência externa. Essa capacidade vai fortalecendo o mecanismo de decodificação/codificação e vai aumentando o conhecimento de palavras escritas. Cada nova palavra bem lida/escrita aumenta a probabilidade de ler/escrever melhor uma outra palavra que partilhe com ela alguns grafemas/fonemas.

Recentemente têm vindo a tornar-se consolidadas as provas de que o ensino conjunto da escrita e da leitura maximiza as aprendizagens alfabéticas. Escrever uma palavra que é lida de seguida ajuda a reter o seu padrão ortográfico em simultâneo com a sua pronúncia, o que melhora o desempenho ulterior na leitura e na escrita não apenas dessa palavra, mas também de outras que partilhem segmentos dessa palavra.

Autoria: Ana Paula Vale          Edição: Andreia Lobo

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Perguntas Frequentes

Durante quanto tempo se deve ensinar o princípio alfabético?

Se for ensinado eficazmente, não é necessário instruir o princípio alfabético mês após mês. Trata-se de uma aprendizagem que deve ser adquirida cedo e solidamente. Quando as crianças o apreendem, passam a usá-lo maciçamente e essa prática torna-as cada vez mais capazes de decodificar/codificar bem.

Depois de as crianças terem compreendido o funcionamento do princípio alfabético, é necessário ensinar explicitamente o resto das letras do alfabeto?

Sim. É muito importante que todas as letras e principais grafemas complexos (grupos de letras e letras com diacríticos) sejam ensinados explicitamente. No decorrer do processo de ensino, provavelmente, algumas crianças vão conseguir induzir os nomes/sons de letras/grafemas não ensinados explicitamente, mas haverá sempre várias crianças que precisam desse ensino explícito.

A importância que se está a atribuir ao ensino do princípio alfabético não é exagerada? Conheço muitas crianças que sabem ler bem sem terem sido ensinadas sobre esse princípio.

Algumas crianças conseguem ser bem-sucedidas na descoberta de padrões regulares da linguagem escrita independentemente do método de ensino. No entanto, a maioria das crianças não consegue. É por isso que o ensino do princípio alfabético é tão crucial.  Tornar explícito o papel que as letras têm na representação dos sons da fala tem potencial para levar todas as crianças a atingir um nível elevado de decodificação/codificação. Isto é particularmente importante para as crianças que têm dificuldades em entender o funcionamento alfabético e para as que trazem conhecimentos rudimentares, ou nenhuns, quando iniciam a aprendizagem da leitura.

Além disso, saber ler/escrever bem, está longe de ser uma expressão objetiva. Muitas vezes considera-se que uma criança lê/escreve bem quando não dá muitos erros ou quando compreende as ideias principais de um texto. No entanto, ler bem envolve, pelo menos, ler com exatidão, com fluência e com compreensão, atingindo níveis elevados de desempenho. O mesmo pode ser dito para a escrita. Escrever com fluência, com complexidade gramatical e com criatividade depende muito da automatização da codificação. Apreender solidamente o funcionamento do princípio alfabético favorece a aprendizagem de cada uma dessas dimensões da leitura e da escrita.

LEITURAS SUGERIDAS

Byrne, B. (2013). Teorias sobre a aquisição da leitura. In M. J. Snowling & C. Hulme (Orgs.), A Ciência da Leitura (pp. 123-137). Porto Alegre: Penso. ISBN: 978-85-65848-51-0. [Tradução de: Byrne, B. (2005). Theories of learning to read. In M. J. Snowling & C. Hulme (Eds.), The science of reading: A handbook (pp. 104–119). Malden, MA: Blackwell. doi:10.1002/9780470757642.ch6]

Byrne, B., & Fielding-Barnsley, R. (1989). Phonemic awareness and letter knowledge in the child’s acquisition of the alphabetic principle. Journal of Educational Psychology, 81, 313–321

Kolinsky, R., Leite, I., Carvalho, C., Franco, A., & Morais, J. (2018). Completely illiterate adults can learn to decode in 3 months. Reading and Writing, 31(3), 649–677. https://doi.org/10.1007/ s11145-017-9804-7.

Morais, J. (2012). Criar Leitores. O ensino da leitura - para professores e encarregados de educação. Porto: Livpsic.

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